O texto a seguir é uma entrevista com o professor e pesquisador Alfredo Veiga-Neto da Universidade Luterana do Brasil. Intitulada "A escola moderna é controladora", você pode acessá-la também no seguinte link: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2309&secao=281
O Grupo deseja a você uma boa leitura!
A escola moderna é controladora
A partir das
reflexões foucaultianas, Alfredo Veiga-Neto diz que, enquanto a escola
disciplinar prepara sujeitos dóceis e obedientes, a escola controladora forma
indivíduos flexíveis e estratégicos
Por:
Márcia Junges e Patricia Fachin
“Com Foucault, podemos compreender, de maneira bastante
original e detalhada, os processos ou práticas de disciplinamento e controle
que a escola moderna vem, há mais de 200 ou 300 anos, colocando em
funcionamento”, aponta Alfredo Veiga-Neto, professor da Universidade
Luterana do Brasil (Ulbra), em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.
Segundo ele, Foucault, “mais do que ninguém, descreveu e mostrou o quanto, na
modernidade, as escolas funcionam como as prisões, os hospitais, os quartéis,
os asilos, as fábricas”, implantando a lógica disciplinar. Ao projetar mudanças
na estrutura educacional, o pesquisador é enfático e afirma que não adianta
sanar os problemas “a partir de instrumentos que não deram certo”. Trata-se
sim, explica, “de pensar de outro modo”, como propôs o pensador francês. Pensar
em mudanças “não se trata de ser contra a modernidade, mas de pensar para além
dela”, considera.
Doutor em Educação e autor da tese A ordem das disciplinas, Veiga-Neto
é professor convidado do Programa de Pós-Graduação em Educação, da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde coordena o Projeto de
Pesquisa Dispositivos Disciplinares e Educação. De sua produção intelectual,
destacamos as seguintes obras, por ele organizadas: Crítica pos-estructuralista
y educación (Barcelona: Laertes, 1997), Imagens de Foucault e Deleuze:
ressonâncias nietzscheanas(Rio de Janeiro: DP&A, 2002) e Foucault & a
educação (Belo Horizonte: Autêntica, 2005).
IHU On-Line – Em que medida o pensamento de Foucault é
útil para compreendermos a educação? De que forma suas teorias ajudam a
repensar os métodos educacionais?
Alfredo Veiga-Neto
- Michel Foucault notabilizou-se por ter se dedicado intensamente a pensar o
presente, procurando traçar o que ele mesmo denominou “uma história do
presente”. Investigando a história das formas de pensamento e algumas práticas
sociais ao longo da história do mundo ocidental, ele acabou por nos oferecer
ferramentas analíticas extremamente úteis para compreendermos principalmente
tanto a “fabricação” do sujeito moderno quanto para entendermos melhor a
própria modernidade e a contemporaneidade. Na medida em que a escola foi e
continua sendo a principal instituição envolvida com aquela fabricação, o
pensamento de Foucault parece mais atual do que nunca.
IHU On-Line - O que os estudos de Foucault acerca do poder
disciplinar, do biopoder, da biopolítica e da constituição do sujeito moderno
revelam sobre as instituições de ensino?
Alfredo Veiga-Neto
- Essa pergunta merece uma resposta muito longa. Dado que essa é apenas uma
entrevista, tentarei ser sintético. Com Foucault, podemos compreender, de
maneira bastante original e detalhada, os processos ou práticas de
disciplinamento e controle que a escola moderna vem, há mais de 200 ou 300
anos, colocando em funcionamento. O resultado de tais processos ou práticas é
justamente a instituição de um tipo de indivíduos aos quais chamamos de
“sujeito moderno”. Foucault, mais do que ninguém, descreveu e mostrou o quanto,
na modernidade, as escolas funcionam como as prisões, os hospitais, os
quartéis, os asilos, as fábricas. O que une todas essas instituições é,
justamente, a lógica disciplinar que elas colocam em funcionamento.
IHU On-Line – Em que sentido as teorias de Foucault sobre a
transformação das sociedades contemporâneas em sociedades de controle se
refletem na realidade escolar?
Alfredo Veiga-Neto
- Michel Foucault não desenvolveu propriamente teorias sobre a sociedade
contemporânea. Ele, de fato usou a expressão “sociedade de controle” para
diferenciar a sociedade européia dos anos 1970 e 1980 em relação a um tipo de
sociedade que parecia estar desaparecendo e que, até então, havia sido pautada
pela lógica disciplinar (e que, por isso, ele chamava de sociedade
disciplinar). Foi Gilles Deleuze que, a partir da expressão criada por
Foucault, nos ofereceu valiosas (porém sucintas) elaborações acerca dos
mecanismos de controle nas sociedades contemporâneas.
IHU On-Line - Que tipos de sujeitos a educação escolar atual
está criando?
Alfredo Veiga-Neto
– Essa pergunta exige uma resposta longa demais. Serei sintético (e, desse
modo, serei perigosamente superficial).
A partir de alguns insights foucaultianos bastante
interessantes, tenho argumentado — junto com alunos e colegas de meu grupo de
pesquisa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na Universidade
Luterana do Brasil — que, enquanto uma escola disciplinar prepara, entre outras
coisas, sujeitos dóceis/obedientes (o que foi amplamente demonstrado por
Foucault), uma escola controladora prepara sujeitos flexíveis/estratégicos. O
sujeito dócil, justamente por ser disciplinado, tende a seguir sempre
determinados padrões que foram previamente “impressos em sua alma”; uma vez
dobrado, ele permanece assim por longos períodos, até ser submetido a outras
práticas disciplinares. O sujeito flexível, por não ser disciplinado, é capaz
de mudar continuamente seu comportamento, suas ações e reações, adaptar-se
estrategicamente a situações diferentes e inesperadas; ele é capaz de dobrar
para, logo depois, voltar à situação anterior.
IHU On-Line – Em que medida a “disciplina” referida por
Foucault é construtiva e ofensiva para o exercício do discurso?
Alfredo Veiga-Neto
- A disciplina, na maneira como é entendida por Foucault, nada tem de ofensiva!
Ela é produtiva, isto é, produz determinadas subjetividades, determinados tipos
de interações sociais, seja para o bem seja para o mal. O problema, se existe e
quando existe, não está propriamente na disciplina, mas no grau em que ela é
experenciada e naquilo que se faz a partir dela.
IHU On-Line – O senhor diz que a escola moderna funcionou
nos últimos quatro séculos como uma grande máquina de fabricar sujeitos
disciplinares. Essa continuará sendo a tendência da educação do futuro?
Alfredo Veiga-Neto
- O quanto e por quanto tempo continuarão a vigorar práticas disciplinares
efetivas é uma questão de futurologia e, por isso mesmo, uma questão de difícil
resposta. Mas o que se sabe é que a disciplina parece ceder, cada vez mais, o
lugar para o controle. Assim, o que a escola contemporânea parece estar fazendo
aceleradamente é produzir sujeitos flexíveis.
IHU On-Line – Quais suas considerações em relação à
frase de Foucault:“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou
de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles
trazem consigo”?
Alfredo Veiga-Neto
– Essa é uma frase bem conhecida e comentada. Ela é auto-explicativa. São
evidentes as conexões entre educação, discursos, saber-poder e política. O
pensamento de Foucault nos ajuda a transitarmos entre tais conceitos, operarmos
produtivamente com eles e a partir deles.
IHU On-Line – Em outra entrevista à IHU On-Line, o senhor
afirma que a crise na educação é a manifestação de uma crise maior, de
esgotamento de valores. Percebe, na modernidade, alternativas para sanar esse
problema? Em que sentido os educadores podem trabalhar para mudar esse cenário?
Alfredo Veiga-Neto
– O que chamamos de crise da modernidade corresponde ao incremento da sensação
de imprevisibilidade sobre o futuro, o que está correlacionado com a
dificuldade que temos para fazer o futuro “obedecer” aos nossos planos,
previsões e desejos. A sensação de crise aumenta na medida em que aumenta o
diferencial entre o que queremos para o futuro (imediato, mediato ou remoto) e
aquilo que de fato acaba ocorrendo.
Como sabemos, a modernidade pode ser definida, dentre outras
maneiras, como o período da História ocidental em que mais se planejou um tipo
de vida e de sociedade e mais se acreditou que tal planejamento se efetivaria.
Ora, vários sociólogos, filósofos, antropólogos, artistas, literatos, historiadores,
pedagogos etc. têm nos mostrado o quanto isso não se realizou ou só se realizou
parcial e localizadamente.
Não se trata, portanto, de sanar um problema a partir de
instrumentos que não deram certo como queríamos que tivessem dado: trata-se,
sim, de tentar, como disse Foucault, “pensar de outro modo”. Isso significa,
partir de outras bases filosóficas e metodológicas, mas sem esquecer o que se
ganhou na modernidade. Não se trata de ser contra a modernidade, mas de pensar
para além dela. Esse pensar de outro modo não significa, portanto, simplesmente
abandonar o passado. Bem ao contrário, a tarefa que se coloca é bastante
complexa e difícil: tentar pensar radicalmente de outro modo, mas sem esquecer
a História. Foucault não é o único capaz de nos ajudar nessa tarefa. Mas é um
dos mais vigorosos e importantes.
Leia mais...
>> Veiga-Neto já concedeu
outras entrevistas à IHU On-Line. Elas estão disponíveis na nossa página
eletrônica www.unisinos.br/ihu.
Entrevistas:
* Repensando a educação a partir
de Michel Foucault. Edição n 203, Michel Foucault, 80 anos, de 06-11-2006;
* “Educação e crise são,
respectivamente, causa e conseqüência uma da outra”. Notícias do Dia, de
28-01-2008.
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