quarta-feira, 18 de abril de 2012


O texto a seguir é uma entrevista com o professor e pesquisador Alfredo Veiga-Neto da Universidade Luterana do Brasil. Intitulada "A escola moderna é controladora", você pode acessá-la também no seguinte link: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2309&secao=281

O Grupo deseja a você uma boa leitura!


A escola moderna é controladora
A partir das reflexões foucaultianas, Alfredo Veiga-Neto diz que, enquanto a escola disciplinar prepara sujeitos dóceis e obedientes, a escola controladora forma indivíduos flexíveis e estratégicos
Por: Márcia Junges e Patricia Fachin
“Com Foucault, podemos compreender, de maneira bastante original e detalhada, os processos ou práticas de disciplinamento e controle que a escola moderna vem, há mais de 200 ou 300 anos, colocando em funcionamento”, aponta Alfredo Veiga-Neto, professor da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, Foucault, “mais do que ninguém, descreveu e mostrou o quanto, na modernidade, as escolas funcionam como as prisões, os hospitais, os quartéis, os asilos, as fábricas”, implantando a lógica disciplinar. Ao projetar mudanças na estrutura educacional, o pesquisador é enfático e afirma que não adianta sanar os problemas “a partir de instrumentos que não deram certo”. Trata-se sim, explica, “de pensar de outro modo”, como propôs o pensador francês. Pensar em mudanças “não se trata de ser contra a modernidade, mas de pensar para além dela”, considera.
Doutor em Educação e autor da tese A ordem das disciplinas, Veiga-Neto é professor convidado do Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde coordena o Projeto de Pesquisa Dispositivos Disciplinares e Educação. De sua produção intelectual, destacamos as seguintes obras, por ele organizadas: Crítica pos-estructuralista y educación (Barcelona: Laertes, 1997), Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzscheanas(Rio de Janeiro: DP&A, 2002) e Foucault & a educação (Belo Horizonte: Autêntica, 2005).
IHU On-Line – Em que medida o pensamento de Foucault  é útil para compreendermos a educação? De que forma suas teorias ajudam a repensar os métodos educacionais?
Alfredo Veiga-Neto - Michel Foucault notabilizou-se por ter se dedicado intensamente a pensar o presente, procurando traçar o que ele mesmo denominou “uma história do presente”. Investigando a história das formas de pensamento e algumas práticas sociais ao longo da história do mundo ocidental, ele acabou por nos oferecer ferramentas analíticas extremamente úteis para compreendermos principalmente tanto a “fabricação” do sujeito moderno quanto para entendermos melhor a própria modernidade e a contemporaneidade. Na medida em que a escola foi e continua sendo a principal instituição envolvida com aquela fabricação, o pensamento de Foucault parece mais atual do que nunca.
IHU On-Line - O que os estudos de Foucault acerca do poder disciplinar, do biopoder, da biopolítica e da constituição do sujeito moderno revelam sobre as instituições de ensino?
Alfredo Veiga-Neto - Essa pergunta merece uma resposta muito longa. Dado que essa é apenas uma entrevista, tentarei ser sintético. Com Foucault, podemos compreender, de maneira bastante original e detalhada, os processos ou práticas de disciplinamento e controle que a escola moderna vem, há mais de 200 ou 300 anos, colocando em funcionamento. O resultado de tais processos ou práticas é justamente a instituição de um tipo de indivíduos aos quais chamamos de “sujeito moderno”. Foucault, mais do que ninguém, descreveu e mostrou o quanto, na modernidade, as escolas funcionam como as prisões, os hospitais, os quartéis, os asilos, as fábricas. O que une todas essas instituições é, justamente, a lógica disciplinar que elas colocam em funcionamento.
IHU On-Line – Em que sentido as teorias de Foucault sobre a transformação das sociedades contemporâneas em sociedades de controle se refletem na realidade escolar? 
Alfredo Veiga-Neto - Michel Foucault não desenvolveu propriamente teorias sobre a sociedade contemporânea. Ele, de fato usou a expressão “sociedade de controle” para diferenciar a sociedade européia dos anos 1970 e 1980 em relação a um tipo de sociedade que parecia estar desaparecendo e que, até então, havia sido pautada pela lógica disciplinar (e que, por isso, ele chamava de sociedade disciplinar). Foi Gilles Deleuze  que, a partir da expressão criada por Foucault, nos ofereceu valiosas (porém sucintas) elaborações acerca dos mecanismos de controle nas sociedades contemporâneas.
IHU On-Line - Que tipos de sujeitos a educação escolar atual está criando?
Alfredo Veiga-Neto – Essa pergunta exige uma resposta longa demais. Serei sintético (e, desse modo, serei perigosamente superficial).
A partir de alguns insights foucaultianos bastante interessantes, tenho argumentado — junto com alunos e colegas de meu grupo de pesquisa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na Universidade Luterana do Brasil — que, enquanto uma escola disciplinar prepara, entre outras coisas, sujeitos dóceis/obedientes (o que foi amplamente demonstrado por Foucault), uma escola controladora prepara sujeitos flexíveis/estratégicos. O sujeito dócil, justamente por ser disciplinado, tende a seguir sempre determinados padrões que foram previamente “impressos em sua alma”; uma vez dobrado, ele permanece assim por longos períodos, até ser submetido a outras práticas disciplinares. O sujeito flexível, por não ser disciplinado, é capaz de mudar continuamente seu comportamento, suas ações e reações, adaptar-se estrategicamente a situações diferentes e inesperadas; ele é capaz de dobrar para, logo depois, voltar à situação anterior.
IHU On-Line – Em que medida a “disciplina” referida por Foucault é construtiva e ofensiva para o exercício do discurso?
Alfredo Veiga-Neto - A disciplina, na maneira como é entendida por Foucault, nada tem de ofensiva! Ela é produtiva, isto é, produz determinadas subjetividades, determinados tipos de interações sociais, seja para o bem seja para o mal. O problema, se existe e quando existe, não está propriamente na disciplina, mas no grau em que ela é experenciada e naquilo que se faz a partir dela.
IHU On-Line – O senhor diz que a escola moderna funcionou nos últimos quatro séculos como uma grande máquina de fabricar sujeitos disciplinares. Essa continuará sendo a tendência da educação do futuro?
Alfredo Veiga-Neto - O quanto e por quanto tempo continuarão a vigorar práticas disciplinares efetivas é uma questão de futurologia e, por isso mesmo, uma questão de difícil resposta. Mas o que se sabe é que a disciplina parece ceder, cada vez mais, o lugar para o controle. Assim, o que a escola contemporânea parece estar fazendo aceleradamente é produzir sujeitos flexíveis.
IHU On-Line – Quais suas considerações em relação à frase de Foucault:“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo”?
Alfredo Veiga-Neto – Essa é uma frase bem conhecida e comentada. Ela é auto-explicativa. São evidentes as conexões entre educação, discursos, saber-poder e política. O pensamento de Foucault nos ajuda a transitarmos entre tais conceitos, operarmos produtivamente com eles e a partir deles.
IHU On-Line – Em outra entrevista à IHU On-Line, o senhor afirma que a crise na educação é a manifestação de uma crise maior, de esgotamento de valores. Percebe, na modernidade, alternativas para sanar esse problema? Em que sentido os educadores podem trabalhar para mudar esse cenário?
Alfredo Veiga-Neto – O que chamamos de crise da modernidade corresponde ao incremento da sensação de imprevisibilidade sobre o futuro, o que está correlacionado com a dificuldade que temos para fazer o futuro “obedecer” aos nossos planos, previsões e desejos. A sensação de crise aumenta na medida em que aumenta o diferencial entre o que queremos para o futuro (imediato, mediato ou remoto) e aquilo que de fato acaba ocorrendo.
Como sabemos, a modernidade pode ser definida, dentre outras maneiras, como o período da História ocidental em que mais se planejou um tipo de vida e de sociedade e mais se acreditou que tal planejamento se efetivaria. Ora, vários sociólogos, filósofos, antropólogos, artistas, literatos, historiadores, pedagogos etc. têm nos mostrado o quanto isso não se realizou ou só se realizou parcial e localizadamente.  
Não se trata, portanto, de sanar um problema a partir de instrumentos que não deram certo como queríamos que tivessem dado: trata-se, sim, de tentar, como disse Foucault, “pensar de outro modo”. Isso significa, partir de outras bases filosóficas e metodológicas, mas sem esquecer o que se ganhou na modernidade. Não se trata de ser contra a modernidade, mas de pensar para além dela. Esse pensar de outro modo não significa, portanto, simplesmente abandonar o passado. Bem ao contrário, a tarefa que se coloca é bastante complexa e difícil: tentar pensar radicalmente de outro modo, mas sem esquecer a História. Foucault não é o único capaz de nos ajudar nessa tarefa. Mas é um dos mais vigorosos e importantes.
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>> Veiga-Neto já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Elas estão disponíveis na nossa página eletrônica www.unisinos.br/ihu.
Entrevistas:
* Repensando a educação a partir de Michel Foucault. Edição n 203, Michel Foucault, 80 anos, de 06-11-2006;
* “Educação e crise são, respectivamente, causa e conseqüência uma da outra”. Notícias do Dia, de 28-01-2008.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Neste vídeo o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. (no Centro de Estudos de Filosofia Americana) trata com  muita propriedade alguns conceitos nietzscheanos como Forte, Fraco e Além do Homem. Apreciem!

domingo, 8 de abril de 2012

Arquivo para download: A verdade e as formas jurídicas, de Michel Foucault

"O que gostaria de dizer-lhes nestas conferências são coisas possivelmente inexatas, falsas, errôneas, que apresentarei a título de hipótese de trabalho; hipótese de trabalho para um trabalho futuro. Pediria, para tanto, sua indulgência e, mais do que isto, sua maldade. Isto é, gostaria muito que, ao fim de cada conferência, me fizessem perguntas, críticas e objeções para que, na medida do possível e na medida em que meu espírito não é ainda rígido demais, possa pouco a pouco adaptar-me a elas; e que possamos assim, ao final dessas cinco conferências, ter feito, em conjunto, um trabalho ou eventualmente algum progresso.

Apresentarei hoje uma reflexão metodológica para introduzir esse problema, que sob o título de A Verdade e as Formas Jurídicas, pode-lhes parecer um tanto enigmático. Tentarei apresentar-lhes o que no fundo é o ponto de conver gência de três ou quatro séries de pesquisas existentes, já exploradas, já inventariadas, para confrontá-las e reuni-las em uma espécie de pesquisa, não digo original, mas pelo menos, renovadora. Em primeiro lugar, uma pesquisa propriamente histórica, ou seja: como se puderam formar domínios de saber a partir de práticas sociais?"

Acesse o link a seguir para baixar o livro.

http://www.4shared.com/file/245696390/1c7726b/Foucault-a-verdade-e-as-formas.html

http://www.4shared.com/get/XNheaUMC/Foucault-a-verdade-e-as-formas.html


Este vídeo é uma matéria produzida pela TV Globo, "Fantástico", dirigido pela grande filósofa Viviane Mosé. A matéria fala do funcionamento da cidade sob o viés foucaultiano. Muito interessante essa visão do urbanismo a partir do aparato teórico de Michel Foucault. Assistamos!

Discurso científico, poder e verdade


Os estudos de Foucault acerca da Verdade e do Poder são discutidos  pela professora Valéria Trigueiro Santos Adinolfi Mestre em Educação – FE/UNICAMP em um artigo muito interessante, com o título: Discurso científico, poder e verdade  conforme o resumo elaborado pela professora:  Nesse trabalho queremos discutir o discurso científico e as relações de poder que produzem sentido de verdade pelo apagamento dos sinais da história. Há uma memória discursiva que, pela coerção, determina os sentidos de verdade e não verdade, produzindo e apagando sentidos. Esse regime de produção de sentidos de verdade científica vem da produção do discurso científico. Aqui propomos algumas questões sobre relações de poder que produzem um discurso sobre a verdade e a relação verdade-poder no discurso científico de acordo com o texto “Verdade e Poder”, de Foucault. O artigo completo encontra-se disponível em: http://www.unicamp.br/~aulas/pdf3/30.pdf
O Café Filosófico é um programa produzido pela TV Cultura e acontece em Campinas, São Paulo. Neste vídeo a filósofa Viviane Mosé fala sobre o poder e a verdade em Michel Foucualt. Vale a pena apreciar a sua palestra. Todos estão convidados! Aproveitem!
Este vídeo é resultado de uma matéria produzida pela TV Globo, programa "Fantástico" e tem como objetivo fundamental esclarecer ao espectador os modos de funcionamento da Sociedade Disciplinar, que foi, como é sabido, objeto de estudo e pesquisa de Michel Foucault.



É sabida a existência de fortes mudanças sociais ocorridas nos séculos XVIII e XIX. Tais mudanças levaram a alterações do jogo do poder, que foi sendo gradativamente substituído pelo que Michel Foucault denomina de sociedades disciplinares, as quais atingiram o seu apogeu no século XX. A passagem de um modo de dominação a outro se deu quando a economia do poder percebeu  que a eficácia maior e o modo mais rentável consistia muito mais em vigiar do que punir.
Pode-se depreender, portanto, duas imagens da disciplina. Citando Foucault: “Num extremo, a disciplina - bloco, a instituição fechado, estabelecido à margem, e toda voltada para funções negativas: fazer parar o mal, romper as comunicações, suspender o tempo. No outro extremo, com o panoptismo, temos a disciplina - mecanismos: um dispositivo funcional que deve melhorar o exercício do poder tornando-o mais rápido, mais leve, mais eficaz, um desenho das coersões subtis para uma sociedade que está por vir. O movimento que vai de um projeto ao outro, de um esquema da disciplina de exceção ao de uma vigilância generalizado, repousa sobre uma transformações histórica: a extensão progressiva dos dispositivos de disciplina ao longo dos séculos XVII e XVIII, sua multiplicação através de todo o corpo social, a formação do que se poderia chamar grosso modo a sociedade disciplinar”.
Foucault, (1997: 173)
As sociedades disciplinares ficaram incumbidas de organizar os grandes meios de confinamento, os quais tinham como objetivo fundamental concentrar e compor, no tempo e no espaço, uma forma de produção cujo efeito deveria ser superior à soma das partes. O indivíduo não cessava de passar de um espaço fechado ao outro: escola, família, universidade, fábrica e prisão ou hospital.
Os mecanismos disciplinares são anteriores ao período que Michel Foucault denominou como sociedade disciplinar, entretanto já existiam de modo isolado, fragmentado. O padrão de visibilidade das sociedades disciplinares projetou-se no interior dos prédios das instituições, que passaram a ser construídos para permitir o controle interno.
É importante levar em consideração o que o pensador Michel Foucault afirma acerca das instituições. É verdade que estas não apresentam essência ou inferioridade, nem são fontes de poder. São, isto sim, mecanismos operatórios práticos que estabelecem (leia-se, fixam) relações. Apresentam dois pólos: aparelhos e regras. O pólo negativo compreende a tática do poder em sujeitar e reprimir. Enquanto o pólo positivo consiste em produzir, mobilizar tipos de forças que constituem o poder, provocando um corpo - a - corpo. Quanto mais poder conseguir produzir, mais conseguirá sujeitar e administrar. Nesse confronto depreende-se um efeito útil, uma notável solução, diria Foucault: o surgimento da disciplina. A disciplina dissocia o poder desse corpo - a - corpo e reduz o perigo da inversão de um equívoco dessa polarização.
A partir do estudo sobre o nascimento da prisão, Foucault observa a existência de três fases: primeiramente, nas sociedades soberanas, no século XVII, existe paralelamente a outras administrações de punição, como o manicômio e o asilo. Com a queda da soberania, a lei e o poder adquirem uma forma regular de administração, isto é, a sua transmissão e continuidade ganham nova forma, quando acontece a estatização da justiça penal.
Como Foucault bem observa, a prisão não é uma pena e direito, não fez parte do sistema penal dos séculos XVII e XVIII. Os legistas são perfeitamente claros a este respeito. Estes afirmam que, quando a lei pune alguém, a punição será a condenação à morte que se dava de diversas formas, tais como: a que a ser queimado, a ser esquartejado, a ser marcado, a ser banido, a pagar uma multa, etc. a prisão não é uma punição.
Quando o indivíduo perde o processo e é declarado culpado, deve uma reparação à sua vítima, isto é, exige-se do culpado a reparação da ofensa que cometeu contra o soberano, a lei e o poder monárquico. Assim é que aparecem os mecanismos da multa, da condenação à morte, do esquartejamento, do banimento etc.
O segundo momento de consolidação da prisão ocorre no final do séc. XVIII e inicio do séc.XIX. É caracterizada pela reforma e reorganização do sistema judiciário e penal nos diferentes países da Europa e do mundo. Nesse momento, ao contrario do período anterior, a prisão passa a difundir-se em todas as direcções, por se efectuarem em alto grau as exigências do diagrama da disciplina, vencida, obviamente a má reprodução que vinha do seu papel precedente.
Foucault denomina esse período de sociedade disciplinar, pois traz como características essenciais a distribuição dos indivíduos em espaços individualizados, classificatórios, combinatórios, isolados, hierarquizados, capazes de desempenhar funções diferentes segundo o objetivo específico que deles exige. Estabelece uma sujeição do individuo ao tempo, com o objetivo de produzir com o máximo de rapidez e eficácia.
A vigilância também se expressa como um dos seus instrumentos de controle, de maneira contínua, perpetua e permanente.
No âmbito do direito penal, passa-se a enunciar os crimes e os castigos que preconizam o controle e a reforma psicológica e moral das atitudes e do comportamento dos indivíduos, diferente daquela prevista no séc. XVIII, que visava tão somente a defesa da sociedade.
Vale dizer ainda que, para Foucault, a prisão, nesse momento, remete a palavras e conceitos completamente diferentes, como a delinquência e o delinquente, que exprimem uma nova maneira de enunciar as infrações, as penas e os sujeitos.
A terceira fase consiste na reforma penitenciária, pois destitui a prisão da sua exemplaridade, fazendo-a voltar ao estado de agenciamento localizado, restrito e separado.
As técnicas disciplinares serão substituídas pelo modelo técnico de cura e normalização. Funcionará como terapêutica da retificação do individuo, e a sentença judicial será inscrita entre os discursos do saber, implicando num baixo grau de exigências do diagrama da disciplina.
Nesse estudo topológico de interrogar as formações históricas, Foucault descobriu uma engenharia que atravessa quase meio século, praticamente despercebida, enquanto estratégias ou tática de poder. Surge, contudo, como uma mecânica de observação individual, classificatória e modificadora do comportamento, uma arquitectura formulada para o espaço da prisão, ou para outras administrações, tais como: a fabrica, a escola, o manicómio. Essa maquinaria era o panóptico (veja nesse mesmo blog um texto específico sobre esse objeto)
O Panóptico é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é, no fundo, a sociedade que atualmente conhecemos:  utopia que efetivamente se realizou. Este tipo de poder pode receber o nome de panoptismo. Vivemos numa sociedade onde reina o panoptismo.
Com o surgimento do Panóptico começa-se a produzir diferentes formas de controle do corpo do homem. Não há mais inquérito, e sim vigilância e exame. O Panóptico teve uma tríplice função, qual seja: a vigilância, o controle e a correção.
De acordo com Foucault, o poder é uma prática social e, por isso mesmo, é constituído historicamente e articula-se com a estrutura econômica. O que Foucault chamou microfísica do poder significa tanto um deslocamento do espaço de análise quanto ao nível que este se efetua. Segundo a sua categorização, as sociedades e os seus respectivos regimes de visibilidade podem ser divididos em: sociedades de soberania, onde o rei ou senhor exercia o poder, por meio de uma vigilância externa e geral; sociedade disciplinar, na qual as instituições são um dos maiores dispositivos de visibilidade, principalmente com relação ao funcionamento dos operários institucionais; a sociedade de controle veio substituir a sociedade disciplinar, na qual ocorre  o exercício do poder à distância.
Hoje, deparamo-nos com uma crise generalizada de todos os meios de confinamento da sociedade disciplinar e assistimos à instalação de uma sociedade que controla à distância. Assim, a crise das instituições modernas representa a implantação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação. A lógica da sociedade disciplinar é analógica, o que significa, noutros termos, que ela é descontinua e diferenciada em cada confinamento, enquanto a da sociedade de controle é numérica e constante.